Nada como um trem depois do outro. Trata-se de um consenso quase universal que a Microsoft, a empresa mais valiosa do planeta no final do século 20, perdeu o trem da internet e da revolução da mobilidade. Mas tudo leva a crer que, depois de ficar parada na estação vendo outras empresas passando e acenando, ela conseguiu pegar o trem seguinte.

Isso ficou claro na quinta-feira 20, com o anúncio dos resultados trimestrais da companhia: lucro de 6,5 bilhões de dólares, para uma receita de 23,3 bilhões. A estrela foi a divisão de nuvem, com uma receita de mais de 13 bilhões de dólares. Como a expectativa dos analistas era de algo perto dos 12 bilhões de dólares, as ações valorizaram 5% (no dia seguinte, caíram por volta de 1%, quando a Microsoft divulgou previsões mais conservadoras para o próximo trimestre).

Mais do que o mero crescimento da receita, o segmento de nuvem da Microsoft apresentou também aumento da margem de lucro, de 42% para 49%.

Todas as unidades do negócio de nuvem tiveram crescimento de dois dígitos em relação ao mesmo período do ano passado: 97% para a Azure (serviço de armazenamento e fornecimento de programas), 43% para o pacote Office 365 (que passou a ser oferecido também como um aluguel mensal, em vez de uma licença que dura vários anos), 74% para o serviço Dynamics (um programa de controle de recursos e de relações com clientes, no estilo SAP ou Oracle).

É uma vitória e tanto para o executivo-chefe Satya Nadella. Em 2013, quando ele tomou o comando da empresa, a Microsoft tinha um valor de mercado de 288 bilhões de dólares. Agora está em 573 bilhões de dólares. O dobro, em quatro anos.

Este resultado não é fruto de melhoras pontuais, ganhos de eficiência e estancamento de gastos. É típico de uma revolução como poucas no mundo dos negócios.

Lembra a da IBM, nos anos 1990, quando esta foi ultrapassada pela própria Microsoft e precisou dar uma reviravolta para se colocar como empresa de serviços, em vez de produtora de computadores.

Esse tipo de movimento é difícil, custoso, arriscado. A própria IBM está tentando fazer algo parecido, novamente, também investindo em nuvem – mas seus resultados, anunciados dois dias antes da Microsoft, deixaram a desejar. As ações da IBM caíram 7,2% este ano.

Ao contrário do que disse Machado de Assis, para a IBM é pior cair da nuvem do que de um terceiro andar.

A revolução de Nadella

Nos primeiros anos do milênio, parecia que a Microsoft só seria salva por um milagre dos céus. Ainda era uma grande empresa, mas sua receita vinha de produtos do passado (o pacote Windows, principalmente, e algo do setor de games). O adjetivo mais usado para ela era “vaca leiteira”, quando uma empresa deixa de inovar e passa a viver apenas dos lucros que ainda pingam de esforços passados.

Pois não é que os céus passaram a favorecer a companhia? Por céus, entenda-se a nuvem. O serviço de computação em nuvem da Microsoft, o Azure, está crescendo tanto que já se aproxima da pioneira e (ainda) líder Amazon, e está deixando para trás a poderosa Alphabet, holding que controla o Google.

A rigor, a Microsoft começou a ensaiar sua revolução antes de Nadella assumir o posto de CEO. Mas estava claro que Steve Ballmer não era a pessoa para levá-la a cabo. Sua gestão ficou marcada pelo menosprezo aos smartphones, depois uma tentativa desesperada de recuperar terreno, com a compra da Nokia (que resultou em nada).

Ballmer anunciou a reestruturação dos serviços, mas foi Nadella quem guiou o barco. Entre suas medidas para virar a companhia, no início deste mês ele anunciou a demissão de 3.000 funcionários, cerca de 10% da área de vendas de programas, para reforçar a aposta na nuvem.

Dado o histórico de aquisições desastradas e investimentos malsucedidos, as iniciativas de Nadella foram vistas com desconfiança. Há dois anos, quando ele anunciou a ambiciosa meta de atingir 20 bilhões de dólares em receita com serviços de nuvem, até 2018, pouca gente acreditou. Pois a companhia está quase lá. A receita anual da área é de 18,9 bilhões de dólares.

A nuvem é o eixo da virada da Microsoft, mas não é a única iniciativa. A compra do LinkedIn – ainda vista com reservas – está parecendo melhor do que parecia um ano atrás. A rede social profissional teve receita de 1,1 bilhão de dólares no trimestre, com prejuízo operacional de 361 milhões de dólares. Está em linha com as projeções da empresa.

Ainda não se sabe direito o que a Microsoft pretende fazer com o LinkedIn, mas está claro que tem algo a ver com aumentar a eficiência de seu serviço Dynamics, pelo acesso a informações da rede social (por esse motivo, a Salesforce, líder em programas de gestão de vendas, também tinha interesse no LinkedIn).

Outra área em que a Microsoft busca avanços significativos é na Inteligência Artificial. Sua assistente de voz Cortana é uma competidora da Siri (Apple), da Alexa (Amazon) e do assistente sem nome do Google. Há poucos dias, ela anunciou o Glas, um termostato automático, seu primeiro grande passo no campo da gestão da casa inteligente.

E a empresa está apostando também em hardware, tentando ganhar terreno com tablets e computadores. Curiosamente, seu desktop da linha Surface Pro arrancou elogios da comunidade de designers, durante anos alinhada com a Apple – a quem muitos acusam agora do pecado de oferecer produtos para as massas, não só para eles.

Embora elogiada, a linha Surface não tem tido vendas satisfatórias. Nadella disse acreditar que isso vá mudar no próximo trimestre, quando fizerem efeito os recentes lançamentos de um tablet capaz de substituir um notebook e um notebook propriamente dito, simples a ponto de competir no nicho de entrada no mercado.

É pouco provável que esses produtos consigam reviver a mística que a Microsoft já teve como o grande motor da revolução dos computadores, no final do século passado. Mas isso já não importa. A cabeça da Microsoft está nas nuvens.